Tocantins
Caso 18: ASCAMPA – Palmas, TO

O manejo inadequado dos resíduos sólidos é um dos maiores problemas ambientais dos nossos tempos. Em 2012, 64 milhões de toneladas de resíduos foram produzidos no Brasil, segundo a Associação Brasileira de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe). Grande parte desse lixo é destinado aos lixões, podendo causar riscos à saúde humana e ao meio ambiente.

Porém nem todo esse material é rejeito (resíduos sólidos que não apresentam outra possibilidade que não a disposição final ambientalmente adequada). Boa parte pode ser reciclada ou reutilizada. De acordo com um estudo realizado pelo Compromisso Empresarial para Reciclagem (Cempre), o Cempre Review 2013, o país ainda perde anualmente R$ 8 bilhões ao enterrar o lixo que poderia ser reciclado.

Embora os dados sejam alarmantes, 27% dos resíduos recicláveis (fração seca) coletados nas cidades deixaram de ser depositados em lixões e aterros em 2012, recebendo a destinação correta. Os 800 mil catadores de lixo do Brasil são alguns dos protagonistas dessa história, sendo responsáveis pela coleta de 18% dos resíduos separados para reciclagem.

O restante é proveniente do sistema de coleta seletiva (presente em 766 municípios brasileiros). Assim, os catadores possuem um importante papel não somente na destinação correta dos resíduos, diminuindo os impactos ambientais, mas também na preservação de recursos naturais.

TRABALHO CONJUNTO
Apesar do importante trabalho, nem sempre os catadores são valorizados. Quando trabalham individualmente, tornam-se dependentes de atravessadores que recebem o material recolhido por vários catadores. Assim, de maneira isolada, cada catador representa apenas um pequeno volume desse atravessador e acaba não tendo qualquer poder de barganha, recebendo o mínimo possível pelo seu material.

Quando articulados em uma rede informal, associação ou cooperativa, no entanto, conseguem agregar o seu volume, aumentando o poder de negociação e, consequentemente, a renda e qualidade de vida de toda a classe.

Assim, com o intuito de defender os catadores da cidade de Palmas, em Tocantins, foi fundada, em 2005, a Associação de Catadores e Catadoras de Materiais Recicláveis da Região Norte de Palmas (Ascampa).

“Antes da associação, vendíamos o quilo do papelão por R$ 0,03. Hoje, conseguimos subir o preço do papelão para R$ 0,32″, diz orgulhosamente Terezinha de Jesus, 50, presidente da associação.

Atualmente, a associação possui um terreno doado pela prefeitura, em que será construída a sede. A Ascampa conta com cerca de 40 catadores, sendo que 12 deles, além de coletar os resíduos recicláveis, trabalham também no armazenamento, triagem e prensagem do material.

Além disso, a associação recolhe o material reciclável das escolas e das casas do bairro, recebe o material coletado pelo supermercado local e também pela coletiva seletiva municipal, que é feita em duas quadras da cidade em caráter experimental. Com a valorização dos materiais vendidos, os catadores da associação ganham, em média, dois salários mínimos por mês, e alguns chegam a ganhar até mais que R$ 2.000.

O FUTURO
Apesar dos ganhos expressivos da associação, os planos de Terezinha e Maria Edileuza Soares, 47, fundadora e ex-presidente da Ascampa, vão muito além. Elas pretendem ampliar ainda mais o poder e a área de atuação dos catadores no próximo ano, articulando a criação de uma rede com as outras quatro associações e cooperativas de catadores do Estado de Tocantins. Assim, poderão cobrar o preço justo pelos materiais coletados, aumentar as vendas, defender os direitos dos catadores e ter acesso a recursos públicos.

O cenário brasileiro também se mostra favorável à concretização dos planos da Ascampa. O mercado de materiais recicláveis está em constante evolução devido às práticas de sustentabilidade cada vez mais constantes na iniciativa privada e uma maior conscientização da população. Além disso, o Governo Federal instituiu, em 2010, a Política Nacional dos Resíduos Sólidos (PNRS), que tem como um de seus objetivos o estímulo à indústria de reciclagem e incentiva a criação de cooperativas e outras formas de associação de catadores de materiais recicláveis.

Diante desse panorama promissor, Terezinha mostra-se confiante para expandir mais o impacto social causado pela associação nos próximos anos. Com o desenvolvimento do setor, ela espera que muito do preconceito da sociedade em relação aos catadores desapareça. O catador é um agente efetivo na coleta seletiva e desenvolve um papel fundamental na gestão integrada de resíduos sólidos, prevista na PNRS.

Terezinha tem muito orgulho de ser catadora, pois faz parte de um grupo capaz de enxergar valor onde ninguém mais enxerga. “A reciclagem é rica, é o ouro a que não sabem dar valor”, afirma.