São Paulo
Caso 25: Solar Ear - São Paulo, SP

Certa vez, a filósofa, escritora e ativista social Helen Keller, que ficou cega e surda aos dois anos de idade, disse: “A cegueira separa as pessoas das coisas. Já a surdez separa as pessoas das outras pessoas”.

De acordo com a OMS (Organização Mundial da Saúde), a deficiência auditiva dificulta o acesso à educação e ao mercado de trabalho, além de levar ao isolamento social e à autoestigmatização. A organização estima que cerca de 5% da população mundial, aproximadamente 360 milhões de pessoas, apresentam deficiência auditiva em níveis que impactam sua vida.

MERCADO

O uso de aparelhos auditivos pode corrigir a deficiência de uma grande parcela dessas pessoas. Ainda assim, apenas 10,8 milhões de aparelhos foram vendidos em 2012 segundo relatório da empresa de pesquisa Sanford C. Bernstein, um mercado estimado em US$ 5,4 bilhões.

Uma possível razão para a expressiva diferença entre o número de deficientes auditivos e o número de aparelhos vendidos é o preço desses objetos. Uma simples extrapolação dos dados apresentados pela Bernstein mostra que o preço médio de venda pela indústria de um aparelho auditivo gira em torno de US$ 500, ou cerca de R$ 1.200.

No Brasil, o preço de varejo desses aparelhos varia de R$ 1.800 a R$ 10 mil. Quanto maior o grau da deficiência auditiva, mais potente e caro é o aparelho.

Assim, não surpreende o fato de que 74% dos aparelhos produzidos em todo o mundo sejam vendidos em países desenvolvidos (dados da Bernstein), enquanto 89% dos deficientes auditivos encontram-se em países de baixa e média rendas (OMS).

Mesmo quando pessoas de baixa renda têm acesso aos aparelhos auditivos, através de ações filantrópicas ou programas governamentais, há uma significativa chance desses aparelhos tornarem-se inutilizados devido ao gasto com as baterias, cerca R$ 3 por aparelho por semana, o que equivale a quase R$ 800 durante toda a vida.

PREÇO

Foi essa realidade que o canadense Howard Weinstein, 64, testemunhou ao trabalhar em Botsuana com deficientes auditivos. Para resolver essa situação, ele fundou, em 2005, a Solar Ear, empresa que produz e comercializa aparelhos auditivos de baixo custo e que usam baterias recarregáveis por energia solar.

Em 2008, Weinstein trouxe a Solar Ear ao Brasil, em parceria com o Instituto Cefac. Os aparelhos oferecidos pela organização custam de R$ 400 a R$ 1.200 – já incluindo as baterias recarregáveis e o carregador solar.

Além do preço mais acessível, o custo de manutenção do aparelho da Solar Ear é bastante inferior. As baterias custam o equivalente a uma comum, mas, por serem recarregáveis, chegam a durar até três anos, cerca de 100 vezes mais. Isso sem contar o alívio ambiental de evitar o descarte semanal de baterias.

Esses objetivos, coincidentemente, estão alinhados com os objetivos do governo de ampliação de acesso e redução dos preços. Além disso, possibilitam a geração de renda para empresários do setor, no interior do país, com a ampliação do mercado.

Andrea Resende, 29, gerente geral da organização no Brasil, explica que são três os segredos para conseguir uma redução tão significativa no preço final do produto: simplificação com foco em suas funções básicas, ao contrário das grandes indústrias do setor, que focam em aparelhos mais sofisticados e caros; estratégia de marketing de guerrilha, cujos custos são em muito inferiores aos das ações usualmente efetuadas pelas “concorrentes”; e o reinvestimento da totalidade do lucro na própria empresa e na sua missão social.

Para a Solar Ear, baixo custo significa alta qualidade. Prova disso, é que a própria OMS recomenda seus produtos, que foram testados e aprovados por estudos das universidades de Michigan (EUA) e Copenhagen (Dinamarca). Além disso, a Solar Ear recebeu o “Tech Award” do “The Tech Museum of Innovation” junto com o “Al Gore”, em 2009. Foi indicada pela “Fast Company” como uma das 10 empresas mais inovadoras do Brasil, em 2011, e recebeu, em 2012, o prêmio “World Technology Network” como melhor negócio social global.

INSERÇÃO SOCIAL

No Brasil, a realidade é bastante parecida com aquela apresentada pela OMS para todo o mundo. No país, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), temos nove milhões de deficientes auditivos e, segundo Andrea, apenas cerca de 300 mil aparelhos são vendidos ou distribuídos à população anualmente.

Entretanto, o trabalho da Solar Ear vai além da oferta de uma alternativa para alterar esses dados. A empresa foca o empoderamento e a inserção social. A organização já capacitou mais de 20 jovens surdos, proporcionando-lhes a oportunidade de estudar e se inserir no mercado de trabalho. Andrea cita o exemplo de Daniel dos Santos, 21. “O Daniel se formou na primeira turma da Solar Ear, aprendendo microsolda eletrônica. Depois aprendeu inglês, língua de sinais de Botsuana e aperfeiçoou o português. Faz faculdade de arquitetura e começou a estudar espanhol e língua de sinais americana. Ver que tudo isso começou aqui é muito gratificante”, acredita.

O trabalho de capacitação de jovens surdos também constitui uma atividade chave para a própria organização. A maior habilidade motora desenvolvida por esses jovens pelo uso da linguagem de sinais torna-os ideais para manusear e montar as delicadas peças que compõem os aparelhos auditivos e os carregadores solares.

BRASIL

No final de 2013, com a aprovação da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), a organização iniciou a comercialização de seus aparelhos no Brasil. Até então, a produção da fábrica brasileira era exportada para mais de 40 países, especialmente para América Latina e África.

Com acesso ao mercado brasileiro, as oportunidades são grandes, assim como os desafios. O primeiro refere-se à comercialização de seus produtos: como fazer com que as pessoas no Brasil conheçam e confiem nos produtos da Solar Ear?

Nos últimos meses, Andrea vem fazendo parcerias com fonoaudiólogos, hospitais, escolas, ONGs e instituições filantrópicas de todo o Brasil. “Os fonoaudiólogos são grandes aliados para chegarmos aos nossos clientes”, destaca.

Um segundo desafio que vem surgindo com a alavancagem das vendas refere-se à ampliação de sua capacidade de produção. Andrea conta com a possibilidade de expandir as atividades da Solar Ear em sua própria sede em São Paulo e com a capacitação de novas turmas de jovens para elevar a capacidade de produção da organização.

REABILITAÇÃO

A Solar Ear tem o potencial de impactar positivamente a vida de milhões de pessoas. Isso não é apenas pela oferta de produtos de qualidade a preços acessíveis, mas por meio de seu trabalho próprio de inclusão social. A organização tem uma visão de realmente mudar a dinâmica do mercado de aparelhos auditivos.

A tecnologia utilizada pela Solar Ear não é patenteada e é oferecida gratuitamente – inclusive para potenciais concorrentes. “Não existe uma única empresa no mundo que consiga atender a toda a população que precisa de um aparelho auditivo. Nossa missão é democratizar o acesso a reabilitação auditiva e dar mais oportunidades de inclusão social para as pessoas com deficiência auditiva”, diz Andrea.

Além disso, Weinstein está de volta ao Canadá, trabalhando na estruturação da matriz global da Solar Ear. A ideia é que as unidades já existentes (Botsuana, Brasil e China) e as em fase de implantação (Índia, Canadá, México e Oriente Médio) compartilhem tecnologia e realizem compras conjuntas, ganhando ainda maior competitividade.