Roraima
Caso 14: COOFEC'S - Boa Vista, RR

Como estimular a geração de emprego e renda em um Estado em que, segundo o IBGE, aproximadamente 50% do Produto Interno Bruno (PIB) procedem dos gastos da administração pública (o segundo maior percentual do país) e que, além disso, possui a menor população do Brasil?

Roraima aparenta começar a ver no empreendedorismo uma estratégia para superar esse desafio. Em recente artigo publicado por uma revista especializada em pequenos negócios, sua capital, Boa Vista, foi indicada como uma das 25 melhores cidades do país para se empreender (dentre aquelas com menos de 1 milhão de habitantes).

Uma das iniciativas que se destacam no ecossistema empreendedor do Estado é a Incubadora Tecnológica de Cooperativas Populares e Empreendimentos Solidários (ITCPES), da Universidade Federal de Roraima (UFRR).

A ITCPES tem como missão apoiar o desenvolvimento de organizações da chamada economia solidária -empreendimentos de base comunitária que apresentam como características a cooperação, a autogestão e a valorização do ser humano sobre o capital.

De modo semelhante a uma incubadora tradicional, a ITCPES acompanha empreendimentos desde sua concepção, fornecendo formação em conceitos da economia solidária e de negócios, assessorando a formalização do empreendimento, prestando consultoria para a estruturação de sua produção e comercialização, e acompanhando a organização até sua “desincubação”.

Um exemplo de iniciativa que teve o apoio da incubadora para se desenvolver é a Cooperativa de Empreendimentos Solidários do Município de Boa Vista (Coofec’s), primeira iniciativa incubada pela ITCPES e nosso 14º caso de negócios sociais.

A cooperativa tem origem em cinco associações de costureiras e artesãs, iniciadas na segunda metade da década de 1990 por incentivo de um programa estadual de criação de Centros de Produção Comunitária.

Em 2009, quando o governo parou de comprar das associações, esses grupos se uniram e fundaram a cooperativa para poder vender seus produtos. Até hoje a única cooperativa de confecção do Estado de Roraima, a Coofec’s produz e comercializa uniformes (escolares e de empresas), ternos, vestidos sociais, vestidos para as festas juninas e “ecobags”.

O fato de ser um empreendimento pautado pelos princípios da economia solidária não isenta a Coofec’s de comercializar seus produtos em um mercado eminentemente competitivo. Segundo o professor Emerson Arantes, coordenador da ITCPES/UFRR, essa dicotomia entre a produção solidária e a comercialização competitiva traz uma série de desafios à Coofec’s, entre os quais estão a competitividade, a gestão do capital de giro, o acesso a crédito e a manutenção da coesão da cooperativa.

COMPETITIVIDADE

Ciente da importância de ter produtos competitivos no mercado a presidente da Coofec’s, Maria dos Santos Sousa destaca que um dos maiores desafios da cooperativa refere-se ao fornecimento de matéria-prima.

A grande maioria dos insumos da cooperativa (tecido e linhas) vem de fora do Estado e o valor desses produtos em Roraima é significativamente mais alto do que em outras regiões. “Se compramos aqui, o produto fica muito caro. Mas nem sempre a gente pode comprar de fora, porque os pedidos têm que ser maiores.”

Na contramão da compra em grandes quantidades, um dos diferenciais competitivos da Coofec’s é sua flexibilidade em relação às quantidades de venda. Não há volume mínimo de pedido nem tamanho fixo de lote de produção. “Se pudermos fazer, fazemos”, diz a tesoureira da cooperativa, Francisca Lopes Silva.

Essa flexibilidade é tida como um diferencial importante para os clientes da Coofec’s -escolas e empresas, que fazem encomendas em maiores quantidades, e estudantes e grupos de dança, que compram peças únicas ou em pouca quantidade. Atualmente, todos os clientes da cooperativa são de Boa Vista, para onde é vendida a totalidade de sua produção.

CAPITAL DE GIRO E ACESSO A CRÉDITO

Em consequência da necessidade de compras em maiores quantidades e das vendas fracionadas, outro desafio apresenta-se à gestão da cooperativa, relacionado à gestão do capital de giro e ao acesso a crédito.

Por não possuir sede própria (a cooperativa funciona em local cedido pelo governo estadual em forma de concessão), a Coofec’s não consegue acessar linhas de crédito para financiar sua operação – tanto de bancos oficiais como de bancos privados (não há em Roraima um Banco Comunitário de Desenvolvimento como o Banco Palmas, o caso estudado pelo Brasil27 no Ceará).

Essa dificuldade fez com que a cooperativa, desde o início, operasse com os recursos de suas próprias vendas, o que comprometeu o ritmo de sua consolidação. “[No começo] a gente não tinha malha nenhuma para fazer fardamento [uniforme]… Conseguimos fazer dez camisetas… Daí [a gente] vendia uma… e [com o dinheiro] comprava um pedaço de malha [para fazer mais camisetas]… Assim [a cooperativa] foi melhorando”, explica Maria dos Santos. A restrição de acesso a crédito para capital de giro, entretanto, persiste até hoje.

COESÃO INTERNA

Além de atrasar a consolidação da Coofec’s, a restrição de acesso a crédito colocou em risco a continuidade da própria cooperativa. Dos 10 associados iniciais, apenas 4 seguem como cooperadas hoje, dentre elas a presidente e a tesoureira da entidade.

“Muita gente desistiu porque, quando [o grupo] era uma associação, a gente tinha um salário fixo. Quando a gente começou [a cooperativa], ficamos alguns meses sem receber nada”, explica Francisca Silva. Hoje a organização conta com 20 costureiras, todas mulheres, que dividem igualmente o resultado financeiro da cooperativa.

Uma consequência natural dessas dificuldades é o surgimento de problemas internos e de coesão da organização. De fato, dos 5 núcleos formadores da Coofec’s, apenas 2 continuam na cooperativa. Os outros 3 ou se desintegraram ou saíram da cooperativa por desalinhamento de propósitos.

“Trabalhar em grupo é difícil. Às vezes ficamos mais tempo aqui do que em casa com o marido e os filhos”, relata Maria dos Santos. E complementa: “Sempre tem problemas, mas o importante é respeitar e não guardar mágoa”.

DESAFIOS E SONHOS

A lista de desafios da Coofec’s não para por aqui. Inovação de produtos, sucessão (há pouco interesse de jovens para entrar na cooperativa) e crescimento do negócio são alguns deles. Desafios esses também compartilhados pelo ITCPES.

Se, por um lado, sobram desafios em termos de negócios, por outro não faltam depoimentos sobre o impacto social da Coofec’s.

“Antes tinha marido que humilhava a mulher [quando ela pedia dinheiro], dizendo que ela não trabalhava. Agora não é mais assim”, ressalta Maria dos Santos. “O sonho é grande. Agora não sei até onde a gente vai.”