Rio Grande do Norte
Caso 9: Rede Xique Xique – Mossoró, RN

O xique-xique é uma planta típica da caatinga nordestina, resistente à seca e que consegue prosperar em solos e climas adversos. Seus ramos espinhosos podem atingir até quatro metros de altura. Possuem flores brancas e produzem frutos saborosos e ricos em sais minerais. Muitas vezes, é o único alimento dos animais em períodos de estiagem.

A força dessa planta foi a inspiração para o batismo de um dos casos de negócios sociais estudados pelo Brasil 27. A Rede Xique Xique de comercialização solidária é uma articulação social baseada na autonomia e na solidariedade de seus membros, que faz das adversidades uma fonte de sucesso e de superação. Nasceu da vontade de agricultores em romper com os intermediários na venda e na circulação dos seus produtos, a fim de fortalecer a autogestão e a organização de todos os participantes.

Teve início em 1999, quando um grupo de mulheres constituiu uma associação informal, a APT (Associação dos Parceiros e Parceiras da Terra), com o intuito de entregar hortaliças orgânicas para um grupo de clientes em troca do pagamento de uma taxa mensal, eliminando, assim, os intermediários.

Após o sucesso da iniciativa, em dezembro de 2003, na cidade de Mossoró (RN), foi inaugurado o Espaço de Comercialização Solidária Xique Xique, que objetivava tornar-se um local de comercialização de referência para o recebimento e o escoamento da produção advinda da agricultura familiar da região oeste do Rio Grande do Norte. A ideia era ter uma oferta diversificada, capaz de atrair e fortalecer o consumo solidário em detrimento do acúmulo de lucro pelos intermediários.

Devido ao surgimento de novas demandas, em 2004, foi constituída a Associação de Comercialização Solidária Xique Xique, que visava fortalecer unidades familiares, grupos informais, associações e cooperativas que compartilham dos mesmos princípios: economia solidária, agroecologia e feminismo.

A rede busca inserir os grupos produtivos em feiras de agricultura familiar já existentes e, quando necessário, articula a criação de novas feiras, além da entrega de produtos a domicílio e a compra direta.

Também integra todos os grupos por meio do estímulo à troca de conhecimentos e do auxílio na formação e no desenvolvimento de todos os integrantes. Outro ponto forte da Rede Xique Xique é a permanente capacitação de seus membros, para que sejam capazes de reivindicar políticas públicas, projetos e ações diversas que contribuam para o fortalecimento da mesma.

Hoje, conta com mais de 300 pessoas em grupos espalhados por 12 municípios do Rio Grande do Norte e divididos em três núcleos centrais. Os produtos e serviços comercializados são os mais diversos: frutas, hortaliças, mel, pesca, marisqueira, bijuterias, artesanato, serviço de bufê, faxina e muitos outros. Existe até um banco solidário em São Miguel do Gostoso, com moeda própria local, o Gostoso.

As decisões são feitas de forma coletiva, em reuniões trimestrais, com representantes de todos os grupos. Além disso, existe um conselho diretor com representantes dos núcleos que se reúne mensalmente para discutir assuntos como a elaboração de projetos, a participação em fóruns e a inscrição em editais.

Para conseguir articular tantos desejos é preciso muito diálogo, como explica Francisca Eliane (mais conhecida como Neneide), 40, coordenadora financeira e membro desde o seu início. Segundo ela, uma das primeiras lições que aprendeu foi ouvir mais e falar menos, respeitar a decisão da maioria, desenvolvendo o coletivo e as decisões políticas do grupo.

Esse processo de decisão coletiva, apesar de extrema importância para o grupo, é extremamente oneroso, por envolver muitos grupos de vários municípios do Estado. No entanto, cada grupo tem total autonomia interna de gestão e decisão, desde que não haja um desalinhamento de princípios.

Neneide afirma que os benefícios gerados vão muito além do aumento da renda dos grupos produtivos. “A grande diferença está na liberdade de poder viver do que se produz, sem ser explorado. A rede é um instrumento para que isso seja possível”.

A atual coordenadora executiva da Xique Xique, Tatiana Muniz, é pescadora em Tibau e explica que “a rede tem muito sentimento, e as relações humanas são prioridades, pois é preciso ter o acolhimento de todos e trazer o sentimento de pertencimento de cada indivíduo”. Ela mesma passou por essa transformação: antes tinha medo de falar e agora representa a organização em todo o Brasil.

Hoje, o sonho da Rede Xique Xique é levar essa transformação para mais pessoas, respeitando a diversidade, o meio ambiente, garantindo condições justas e a qualidade do produto comercializado.

Para entrar na rede, os grupos interessados enviam uma carta de apresentação, que é analisada com base no alinhamento dos princípios. Caso necessário, ela auxilia no desenvolvimento dos grupos para que estes possam ser integrados. Já existe uma grande demanda de novos grupos querendo fazer parte. O grande desafio é ter braço para poder acompanhá-los e desenvolvê-los.

A história dessas mulheres e homens tem mudado toda uma forma de fazer comércio no Estado do Rio Grande do Norte e, com essa determinação, a Rede Xique Xique segue transformando a dura realidade do sertão nordestino.