Piauí
Caso 11: Cooperart Poty - Teresina, PI

Quem visita Teresina, no Piauí, tem como parada obrigatória o Polo Cerâmico de Poty Velho, um dos maiores patrimônios culturais da cidade, onde se transforma argila em arte.

Dentre as 51 oficinas e 284 famílias que compõem o polo, destaca-se a Cooperart – Poty (Cooperativa de Artesanato de Poty Velho) pela sua história, contada por meio da coleção de bonecas “Mulheres do Poty”, o carro- chefe da empresa, composta por cinco peças: a mulher religiosa, a do pescador, a da olaria, a ceramista e a das continhas. É nosso décimo primeiro caso de negócios sociais.

Raimunda Teixeira, 50, presidente da Cooperat – Poty, conta essa história, que se confunde com a sua própria trajetória. Os moradores do bairro de Poty Velho, o primeiro bairro de Teresina, tinham como principais fontes de renda a pesca e as atividades relacionadas ao trabalho nas olarias. Após a década de 60, com a chegada do artesão Raimundo Nonato da Paz, que instalou o primeiro torno artesanal para a produção de potes e jarros de barro, iniciou-se um trabalho tímido de artesanato no bairro. A atividade cresceu na região, sendo fortalecida pela fundação da Acepoti (Associação dos Ceramistas do Poty Velho), em 1998.

Até então, era uma atividade predominantemente masculina, restando às mulheres o árduo trabalho nas olarias. O transporte dos tijolos era extremamente pesado e mal remunerado. Tais trabalhadores, por serem os mais pobres da região, eram excluídos da própria comunidade. “A gente não era chamado para participar de nada. A gente era isolada na rua”, conta Raimunda.

Raimundinha (como é carinhosamente conhecida), porém, batalhou por seu espaço e conseguiu melhorar sua vida por meio do artesanato, tornando-se uma voz importante e uma grande líder na associação. “Eu ficava o dia inteiro carregando tijolos no sol para, ao final do dia, ganhar R$ 10. Foram 22 anos carregando tijolos até que eu percebi que poderia fazer algo diferente”, conta.

Após articulações da associação, o Sebrae ministrou, em 2004, um curso de modelagem de bijuterias em cerâmica, cujo público-alvo eram trabalhadoras da olaria e donas de casa, mulheres de pescadores. Esperava-se, dessa maneira, incluir no polo cerâmico as mulheres oprimidas do bairro. Assim, várias das que participaram do treinamento aprenderam a fazer “continhas de barro” e se organizaram para fundar a Cooperart – Poty em 2006, mesmo ano de fundação do Polo Cerâmico.

Hoje, com a liderança de Raimunda, a cooperativa conta com 39 mulheres. A Cooperart – Poty destaca-se atualmente por criar coleções de peças de cerâmica com uma forte identidade cultural local, contando histórias da região, como o Cabeça de Cuia. O produto tem história, diferentemente do das outras lojas. Por isso há a preocupação de se incluir uma etiqueta em todos as peças contando quem é a artesã e de onde ela vem. Com isso, o cliente compra também um pedaço de história de Teresina.

Outra grande diferença das artesãs é a busca constante pela inovação. O portifólio da cooperativa é constituído por produtos já dominados por todas as artesãs (60%), produtos relativamente novos de que já se tem um pouco de domínio (30%) e produtos dos quais não se tem domínio (10%). O treinamento, portanto, é visto como prioridade na Cooperart – Poty.

Atualmente não há espaço para que todas as artesãs trabalhem ao mesmo tempo na cooperativa. Assim, elas trabalham uma parte do tempo em suas casas. Os itens novos, contudo, são sempre produzidos dentro da cooperativa. A troca de experiência entre as artesãs acelera o amadurecimento e o domínio da produção das novas peças.

Engana-se quem pensa que o único mercado da cooperativa são os turistas. O artesanato é também muito valorizado e comprado pela população local. Há também uma venda significativa de brindes corporativos para grandes empresas. A cooperativa possui somente uma loja no polo cerâmico, mas conta com o auxílio do Sebrae na comercialização de produtos em suas lojas terceirizadas. Os produtos são enviados para essas lojas e o que não é vendido retorna à cooperativa, com o frete subsidiado pelo Sebrae. A participação em feiras representa também um importante canal de vendas.

A Cooperart – Poty remunera as artesãs de acordo com o que cada uma produz. A venda dos produtos feitos por várias pessoas é distribuída igualmente entre as cooperadas. Os produtos feitos de maneira individual são faturados individualmente. Dessa maneira, busca-se respeitar e remunerar de maneira justa as artesãs, com seus diferentes ritmos de produção e aspirações. Do faturamento total, 10% são destinados à manutenção e ao pagamento dos gastos da cooperativa.

A cooperativa tem muitos planos para o futuro. Entre eles estão a ampliação do espaço da produção, para assim oferecer oportunidades a outras mulheres da região, o fortalecimento da parte comercial e o domínio do torno, que ainda é feito pelos homens. Há também novos desafios pela frente, como a procura por uma nova fonte de matéria-prima, já que a área de onde é retirada a argila atualmente encontra-se muito degradada e será revitalizada em um projeto do Banco Mundial, impossibilitando permanentemente a retirada de argila do local.

O impacto da cooperativa vai muito além do aumento de renda. A valorização da autoestima e a melhoria das condições de trabalho também têm um impacto significativo na vida dessas mulheres. Houve até mesmo uma mudança no comportamento dos homens em relação a elas. Vendo o sucesso da cooperativa, muitos começaram a inserir suas mulheres nas atividades do polo. Assim, muitas delas, antes submissas, ganharam independência. “Hoje temos orgulho de dizer que somos artesãos”, afirma Raimunda. Com uma clara paixão estampada nos olhos, completa: “Na minha veia não corre sangue, corre barro”.