Mato Grosso
Caso 17: Ouro Verde - Alta Floresta, MT

Com a aproximação de dezembro, a demanda por produtos típicos desta época do ano aumenta. Um deles é a castanha-do-pará, iguaria cuja cadeia produtiva é uma das mais antigas da Amazônia e que historicamente foi baseada no trabalho quase escravo de pequenos coletores-extrativistas e na concentração da renda nos atravessadores.

Algumas iniciativas tentam mudar essa realidade histórica. Dentre elas se destaca o trabalho da empresa Ouro Verde Amazônia, fundada em 2002 pelo então professor da Universidade de São Paulo (USP) Luis Fernando Laranja da Fonseca, 46.

A Ouro Verde é resultado de um processo planejado de identificação de oportunidades de negócios sustentáveis na Amazônia. “Eu sempre acreditei que a forma mais efetiva de preservar a Floresta Amazônica é por meio da geração de valor a partir dos ativos de sua biodiversidade. Então eu e minha esposa estudamos várias oportunidades de usar os recursos da floresta de forma rentável e sustentável -peixe, frutas, sorvete… E a castanha-do-pará destacou-se por uma série de motivos.”

Para quebrar o ciclo de exploração da cadeia da castanha, Laranja concebeu a Ouro Verde baseada em dois pilares de atuação: inovação e relacionamento diferenciado com as comunidades fornecedoras. A lógica é a seguinte: por meio da inovação, é possível agregar maior valor à castanha e assim remunerar melhor os fornecedores.

CÍRCULO VIRTUOSO
Adicionalmente, ao estabelecer um relacionamento próximo, justo e de apoio às comunidades extrativistas, a Ouro Verde obtém melhores insumos, ou seja, um produto de maior valor, e constância de fornecimento, fatores que possibilitam maior eficiência operacional. Assim, forma-se um ciclo virtuoso de fornecimento e comercialização do produto.

Com a experiência em pesquisa e desenvolvimento trazida por Laranja de sua carreira acadêmica, foi possível empreender um processo de inovação, que culminou na criação de três produtos 100% feitos da castanha-do-pará: azeite, granulado e creme. Além disso, os produtos da Ouro Verde, incluindo a castanha “in natura”, são certificados como orgânicos, o que, segundo o empreendedor, constitui um diferencial que lhes confere maior valor de mercado.

“Já o impacto social foi consequência natural da cadeia produtiva escolhida”, resume. Ao trabalhar com o conceito de comércio justo junto aos seus fornecedores, a Ouro Verde desenvolveu uma série de iniciativas de apoio e capacitação a essas comunidades. Tais iniciativas vão desde uma cartilha que ensina procedimentos de coleta orgânica, passando por apoio no transporte dos produtos, até a ajuda com a emissão de notas fiscais e antecipação de pagamento pela coleta. Tais ações têm impacto direto na renda e qualidade de vida dos castanheiros e suas famílias, além, claro, do estímulo à preservação da Floresta Amazônica por meio de uma atividade econômica ambientalmente sustentável.

DESAFIOS
Evidentemente, a forma de atuar da Ouro Verde lhe traz uma série de desafios de negócio. O primeiro deles é encontrar mercado para seus produtos inovadores. O azeite, o granulado e o creme são vendidos principalmente por lojas especializadas das regiões Sul e Sudeste do país. As grandes redes de supermercado e a indústria alimentícia ainda compram majoritariamente a amêndoa “in natura”, que corresponde a 90% do volume de vendas da empresa.

Outro desafio está relacionado diretamente à dinâmica do mercado da castanha e à forma com a qual a Ouro Verde apoia a produção de seus fornecedores. “Pagamos todos nossos fornecedores à vista, e o fornecimento do ano todo tem que ser adquirido na época da safra, de dezembro a abril. Só que as vendas são diluídas ao longo do ano. Esse descasamento de pagamentos e recebimentos gera uma necessidade muito grande de capital de giro. Some-se a isso a dificuldade de se obter empréstimos para negócios sustentáveis, e a Ouro Verde fica sempre limitada ao uso dos recursos internos da empresa para crescer.”

Foi pensando na solução desses dois grandes desafios que a Ouro Verde teve a entrada de um novo sócio no negócio, em 2009, o Grupo Jari, conjunto empresarial com forte atuação no Norte do Brasil, em especial no setor de papel e celulose. Assim, a Ouro Verde é, até o momento, um dos poucos casos no país de um negócio social que tem como sócio majoritário uma empresa “tradicional”. O que poderia ser uma potencial fonte de conflitos mostrou-se, na verdade, um casamento harmônico. “Conhecer o Grupo Jari foi um daqueles raros encontros no mundo de negócios. Não precisamos de mais de 15 minutos de conversa para ver que temos uma forte convergência de filosofia de negócios.”

A entrada do novo sócio trouxe o aporte de capital necessário para que a Ouro Verde desse um salto no seu patamar de operação. Desse aporte, cerca de 70% foram utilizado como capital de giro para expandir o negócio, e o restante, em equipamentos e melhoria da estrutura física da fábrica da empresa, localizada em Alta Floresta, Mato Grosso. Além disso, a Jari também abriu novas portas de comercialização para os produtos da Ouro Verde. Com maior capital de giro e novas oportunidades de negócios, entre 2008 e 2010, a Ouro Verde aumentou seu faturamento em mais de 700%, atingindo um patamar anual de mais de três milhões de reais.

Em 2011 e 2012, o patamar de faturamento da Ouro Verde manteve-se estável. Por sua vez, 2013 está sendo um ano difícil, com queda acentuada do preço da castanha. “Por causa do mercado, acabamos comprando menos matéria esse ano e tivemos que produzir em um ritmo abaixo de nossa capacidade”, explica Márcia Müller, 40, gerente da fábrica em Alta Floresta.

Com a recente recuperação do preço da castanha, Laranja vê espaço para um novo salto de faturamento, da magnitude daquele vivido entre 2009 e 2010. Desta vez, porém, sem a entrada de novo sócio. “Estamos buscando financiamento, mas é mais fácil obter recursos para criar gado na Amazônia do que para um negócio como o nosso.”

NOVO PRODUTO
E como crescer sem perder a essência que caracterizou a empresa até agora?

Parte da resposta encontra-se exatamente no passado da iniciativa. Depois do período de inovação inicial, a Ouro Verde concentrou-se na produção e na comercialização desses produtos. O lançamento de novos artigos é uma das apostas para estimular o crescimento da Ouro Verde e continuar agregando valor aos seus produtos. E Laranja faz suspense: “Já estamos com um novo produto, a castanha fatiada e saborizada. Tem mais novidades vindo por aí”.

A história da Ouro Verde Amazônia é um caso bastante interessante de empreendedorismo social: calcada na crença de que é possível desenvolver negócios na Amazônia que balanceiem as três vertentes da sustentabilidade -econômica, social e ambiental; nascida de um cuidadoso estudo de mercado; inovadora em uma cadeia produtiva antiga e, aparentemente, sem grandes oportunidades; e, finalmente, incorporada por um grande grupo empresarial. Dados seus planos futuros, vale a pena seguir essa história de perto.