Goiás
Caso 20: IPEC - Pirenópolis, GO

A Terra está no “vermelho”. Em 20 de agosto de 2013, a humanidade esgotou o orçamento do planeta de todo o ano. É o que diz o estudo “Earth Overshoot Day” (Dia de Sobrecarga da Terra), da “Global Footprint Network”. Isso significa que estamos transformando recursos em dejetos mais rápido do que o planeta consegue renová-los. Em outras palavras, estamos utilizando os recursos e a capacidade de renovação de 1,5 planeta para nossa existência. De acordo com essa tendência, em 2030, iremos necessitar de duas Terras para nos suportar e, obviamente, temos somente uma.

Permanecer na Terra, usufruindo de maneira responsável dos recursos naturais e adaptando conceitos tradicionais ao desenvolvimento tecnológico, é o grande objetivo da permacultura -a cultura da permanência. O termo surgiu na década de 1970 para denominar um conjunto de práticas que criam soluções sustentáveis para suprir as necessidades essenciais humanas, sem desperdícios e integradas com os ecossistemas naturais. As práticas são desenvolvidas baseadas em três pilares éticos: respeite o planeta, respeite às pessoas e distribua os excedentes.

Com o intuito de divulgar e aplicar diversas tecnologias sociais, André Soares, como consultor do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), viajou por todo o Brasil e ministrou mais de 8.000 cursos pelo país. Com essa experiência, surgiu a ideia de criar um Centro de Tecnologia de Permacultura no Brasil.

A primeira grande decisão era escolher o local desse centro. O princípio balizador da escolha era de não minimizar o impacto. Queriam, na verdade, causar um impacto positivo. Por isso buscavam uma área extremamente degradada. Assim, após alguns estudos, André e sua mulher, Lucy Legan, concluíram que a melhor região para construção do centro era numa área próxima ao município goiano de Pirenópolis, a 120 km de Goiânia e a 140 km da capital federal. Surgia, então, em 1998, o Instituto de Permacultura e Ecovilas do Cerrado (Ipec).

O início foi bastante desafiador. O terreno estava extremamente devastado devido à atividade pecuária que era desenvolvida no local até então, dificultando qualquer tipo de cultura. Diante de tamanho desafio, o Ipec foi se desenvolvendo aos poucos de acordo com a seguinte filosofia de Lucy: “Se quiser mudar algo, é necessário iniciar com você. A melhor coisa é parar em um lugar, olhar para seus pés e mudar o que está ao redor do seu centro e ir aumentando essa mudança até conseguir mudar o mundo”.

A solução para o solo devastado veio juntamente com a solução de outro grande problema enfrentado -o tratamento dos próprios dejetos. O casal desenvolveu a tecnologia Húmus Sapiens -sanitário seco. Consiste em misturar serragem aos dejetos humanos, que, após decompostos, são levados a um minhocário para produção de adubo. Com essa e outras técnicas desenvolvidas e implantadas, o instituto cresceu e hoje desenvolve estratégias de habitação ecológica, saneamento responsável, energia renovável, segurança alimentar, cuidado com a água e processos de educação para a sustentabilidade de forma diferenciada.

Além disso, o Ipec oferece cursos, como de permacultura, design e consultoria (PDC), bioterra, biocidades e energia renovável. Recebem visitação e realizam oficinas com as escolas do município de Pirenópolis, em que os alunos aprendem conceitos da permacultura na prática. Promovem ainda, em parceria com a Universidade de Massachussets, dos Estados Unidos, o “Living Routes”, em que os estudantes passam 30 dias no ecocentro, vivenciando o dia a dia local e aprendendo novas práticas para se viver de forma sustentável.

O Ipec é também capaz de abrigar 20 pessoas com residência fixa, em casas construídas por alunos do curso de Bioconstrução, disponíveis para serem alugadas. Hoje há sete pessoas que trabalham e moram no Ipec.

Existem outros centros de permacultura no Brasil. De acordo com o site Permacultura no Brasil, em 2012 havia nove institutos e sete redes relacionados ao tema. Mas o diferencial do Ipec, segundo Ailson Júnior, 36, atual presidente, é que, além de ser o pioneiro no Brasil e de oferecer diversos cursos, é uma referência mundial por estar constantemente desenvolvendo novas tecnologias e em uma região culturalmente bastante tradicional. O segredo para promover tal inovação é reservar um período do tempo, uma vez por mês, para desenvolver e testar novas tecnologias.

Além de aumentar o número de pessoas morando no ecocentro, Júnior tem ainda outros planos para os próximos anos. Para aproveitar a capacidade de hospedagem do Ipec (que abriga os alunos dos cursos e que por longos períodos de tempo fica ociosa), ele quer estruturar um hostel no local, atraindo os interessados em ecoturismo e práticas esportivas.

Quer ainda ampliar a carteira de cursos ofertados, incluindo outros voltados às artes e à área da saúde, e desenvolver a aguaponia (técnica de cultivo de plantas sem solo, em uma solução nutritiva com água em associação com a piscicultura).

“É necessário que o ser humano entenda que ele é responsável pela própria existência”, acredita Júnior. Só assim poderemos voltar a ter um balanço positivo no planeta Terra e garantir a permanência dessa e a das próximas gerações.

Para muitos, tal realidade, frente aos acelerados crescimento econômico e utilização dos recursos naturais, parece ser quase impossível. Talvez, para começar, tenhamos que parar e olhar para nossos próprios pés.