Espírito Santo
Caso 23: Treebos - Guarapari, ES

“Sendo médico de família em Roraima, eu vi crianças comendo argila misturada na comida para matar a fome. Também ouvi de um produtor de arroz da região que toda sua produção era exportada para a Ásia. Isso me despertou para a questão da alimentação e fiquei pensando em como produzir alimentos de forma descentralizada e socialmente justa.”

Infelizmente, cenas como as relatadas por Murilo Ferraz, 34, são mais comuns do que se imagina. Segundo dados da FAO (Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura), uma a cada oito pessoas no mundo (cerca de 870 milhões de seres humanos) sofre de subnutrição crônica, ou seja, fome. Ainda segundo a entidade, o mundo produz comida suficiente para todos e desperdiça um terço dela.

Esse é o terreno no qual Ferraz pretende germinar a semente de um negócio social inovador, a Treebos.com. Sediada em Guarapari, no Espírito Santo, a empresa tem como objetivo intervir diretamente na cadeia produtiva de alimentos, aproximando produtores e consumidores. “Queremos ser uma alternativa ao modelo de produção de commodities para combater a fome”, diz.

Para isso, a Treebos apresenta uma ideia de negócio que une a agricultura ao mundo digital, em tese adaptável a qualquer região cultivável do planeta. Seguindo orientações do Incaper (Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural), a empresa desenvolveu um modelo de pomar de 10 hectares -chamado de Bosque do Futuro- pensado para pequenos agricultores rurais, no qual são plantadas 3 dentre 35 espécies de frutas selecionadas pela organização. Hoje, a Treebos conta com dois bosques (plantados em setembro de 2013), um em Guarapari e outro em Campos dos Goytacazes, no Rio de Janeiro.

Cada árvore dos bosques é, então, colocada para “adoção” na internet, e a pessoa que a adota passa a ter direito sobre as frutas que serão produzidas por ela. Os produtos poderão ser entregues na casa do comprador, em instituições de caridade, escolas e hospitais cadastrados ou vendidas na feira virtual da própria Treebos. A empresa cobra uma mensalidade para financiar o sistema.

Mas o investimento inicial em um pomar tradicional era proibitivo para uma start-up. A estratégia da Treebos foi parcelar ao longo do tempo custos que não são necessários no primeiro ano de operação. Assim, a empresa consegue iniciar um bosque com um quarto do valor que seria demandado por um pomar tradicional, o que atenua a necessidade de capital da empresa.

MODELO DE NEGÓCIOS
O modelo da Treebos é interessante também por possibilitar uma série de ramificações para o negócio. A “adoção de árvores” pode ser complementada por assinaturas de “delivery” de frutas (individual e corporativo), venda ao varejo e comercialização de polpas de fruta congelada. “Mesmo se não conseguirmos nenhuma assinatura, teremos operação positiva no terceiro ano apenas com a venda das frutas. Isso nos dará fôlego para, se necessário, ajustar eventuais falhas do modelo e conquistar o cliente”, conta Ferraz.

No cerne dessa flexibilidade, encontra-se outro conceito importante do negócio da Treebos: conectar uma rede de consumidores com uma rede de pequenos produtores rurais por meio da internet. “A ideia é que a produção e o consumo sejam em rede, pois em rede tudo fica mais barato”, esclarece o empresário.

No próprio conceito de rede encontra-se o mais direto impacto social da Treebos. Ferraz explica que, ao cortar intermediários entre o pequeno produtor e o consumidor, a Treebos pode aumentar em até 60% a renda do indivíduo. Hoje os 12 pequenos agricultores da rede recebem uma renda média de R$ 1.420, oriunda do serviço de “delivery” de frutas que a Treebos opera na cidade do Rio de Janeiro e da manutenção dos bosques (o serviço de “delivery” é abastecido com pomares dos próprios agricultores, pois os Bosques do Futuro ainda não estão produzindo).

IMPACTO E DESAFIO
Entretanto, Ferraz acredita que o impacto da Treebos será mais profundo à medida que ela melhorar também a capacidade produtiva desses pequenos agricultores. Para isso, a empresa os acompanha de perto, dando-lhes apoio técnico e repassando parte do aumento de renda na forma de insumos produtivos.

Gerando maior renda e apoiando o crescimento desses produtores, o empresário espera fortalecer suas raízes rurais, impedindo, e eventualmente revertendo, o fluxo de pessoas para as cidades e aumentando a produção de alimentos. “Começamos pelas frutas por seu potencial comercial, mas, com a Treebos, no futuro, qualquer pessoa poderá ser ‘sócia’ de bosques de frutas, hortas de legumes, criação de peixes, galinhas etc.”.

Há uma série de desafios de mercado para a Treebos: o modelo de adoção de árvores ainda precisa passar por seu teste mais rigoroso -ser aceito pelos clientes; o modelo de produção com bosques padrão precisa ganhar escala; e a empresa precisa provar que é possível estabelecer um sistema logístico viável para distribuir frutas provenientes de uma produção descentralizada para uma clientela também descentralizada. Para superar esse último desafio, Ferraz aposta na produção de frutas próxima ao local de consumo. Por isso é necessário planejar, e até restringir, os locais a serem atendidos.

Em sua breve história, a Treebos já passou pela difícil decisão de desenvolver-se naturalmente ou “utilizar fertilizantes”. Para crescer, a empresa passou por um processo de aceleração turbulento. “Tínhamos diferentes visões para a Treebos, e a deles era muito focada no negócio”, conta Ferraz, que acabou, junto com a equipe, decidindo abrir mão de todo o apoio dado pela aceleradora para seguir com seu plano original. “Nós batemos o pé e seguimos com nossa vertente social”, completa.

FUTURO
Contudo, isso não significa dizer que a Treebos optou por um modelo de crescimento lento. A empresa pretende finalizar 2013 com cinco bosques plantados.

Para 2014, a meta é constituir mais 25 bosques pelo Brasil e atender a propostas de expansão para a Europa e os Estados Unidos. “Chegamos a um momento em que a Treebos não cresce mais sem investimento. Mas hoje podemos escolher investidores que compartilham o propósito da empresa. “Tais investimentos se manifestam por meio de aporte de recursos financeiros ou de serviços à empresa em troca de ações do negócio”.

Ferraz segue como sócio majoritário e CEO da empresa. “O importante é todos estarem alinhados quanto ao nosso objetivo, e hoje queremos dar acesso a alimentos de qualidade por um preço justo ao mundo todo. Meu sonho é que cada cidade do mundo com mais de 100 mil habitantes tenha ao menos um bosque.”