Amapá
Caso 13: Comaru – Laranjal do Jari, AP

A extração da castanha-do-brasil (ou castanha-do-pará) é a principal fonte de renda de milhares de famílias que vivem na Amazônia. Os coletores, chamados castanheiros, vendem sua produção a atravessadores, seguindo a lógica do financiamento: o produto é vendido antes mesmo do início do seu ciclo, a fim de garantir a sobrevivência destes trabalhadores no período de entressafra, a um preço muito baixo.

Essa era a realidade vivida pelos moradores do sul do Amapá, que, desde a década de 1960, habitam as margens do rio Iratapuru. Suas casas eram isoladas e, por isso, o contato com as outras famílias era pequeno. Individualmente, tinham pouco poder de barganha com os atravessadores e, assim, acabavam sendo explorados. “Alguns navios vinham do Pará trazendo vários produtos que eram trocados pela castanha. Trocava-se até mesmo uma saca de castanha por uma lata de leite em pó”, conta Elizabeth, moradora da comunidade.

Buscando reunir a produção de todos os castanheiros para possibilitar a negociação de melhores preços, os moradores da região formaram a Comaru (Cooperativa Mista dos Produtores e Extrativistas do Rio Iratapuru), em 1992 (nosso 13º caso de negócios sociais). Com isso, as famílias começaram a se mudar para um mesmo local às margens do rio, dando origem à Vila São Francisco do Rio Iratapuru, no município de Laranjal do Jari, no Amapá.

A cooperativa iniciou suas atividades produzindo biscoitos de castanha-do-brasil, que eram consumidos em larga escala na merenda escolar da região. Após um incêndio, em 2003, que destruiu todos os equipamentos, a cooperativa mudou seu foco. Com a falta de apoio do governo estadual, que não mais compraria os biscoitos, e a aproximação de uma multinacional de cosméticos, a instalação foi reconstruída voltada à produção do óleo biológico da castanha. O breubranco (resina expelida por uma espécie de árvore encontrada na floresta) também é fornecido, mas em menor quantidade.

Elizabeth conta que, “antes da cooperativa, não tinha energia, escola, agente de saúde, rádio e comunicação. Essas evoluções vieram graças à cooperativa. É fácil verificar isso olhando comunidades próximas, que não se organizaram e hoje não têm tantas melhorias. Só depois da cooperativa passamos a ter acesso a recursos”.

Atualmente, a Comaru garante o sustento de 58 famílias – cerca de 250 pessoas, que se dividem em trabalhos de extração, processamento e administração. Em 2012, chegou a produzir e vender oito toneladas de óleo de castanha. Apesar do grande volume, a cooperativa possui somente um cliente – a multinacional de cosméticos, que compra toda a produção.

A parceria da cooperativa com a multinacional, por meio de um contrato de longo prazo que garante a compra do óleo da castanha, trouxe grandes benefícios para a população da vila. Além de a empresa pagar o preço justo pela matéria-prima muito acima do valor de mercado, 0,5% da receita líquida da venda dos produtos que usam ingredientes da Comaru é convertido para um fundo destinado a projetos de desenvolvimento sustentável para a comunidade.

DESAFIOS

No entanto, a parceria entre duas organizações com modelos e escalas tão diferentes possui grandes desafios. Ao mesmo tempo em que se deve levar em consideração e respeitar a capacidade de produção da comunidade, deve-se entender a necessidade de produção da multinacional e a grande variabilidade da demanda por seus produtos.

No primeiro ano de parceria, em 2003, a capacidade da Comaru foi superestimada e ela não conseguiu cumprir o contrato de produzir 15 toneladas de óleo de castanha. Consequentemente, não abasteceu o estoque previsto da empresa. Por outro lado, neste ano, devido ao acúmulo de estoque da multinacional, foram comprados somente 1,8 tonelada de óleo, quando o esperado era uma quantidade próxima à do ano passado (oito toneladas), causando grandes prejuízos à cooperativa.

A variabilidade de demanda é intrínseca a esse tipo de parceria e modelo devido a dois principais fatores que impedem um abastecimento contínuo: safra e logística. A castanha é uma amêndoa cuja safra ocorre entre os meses de dezembro e junho. É necessário, portanto, produzir de acordo com uma previsão anual da demanda.

A dificuldade do acesso logístico à comunidade inviabiliza financeiramente a distribuição em pequenas quantidades, dificultando ainda mais algum tipo de abastecimento contínuo. Dessa maneira, é impossível reagir de forma rápida quando há o descasamento entre a previsão e a demanda real pela matéria-prima, causando prejuízo a uma das duas organizações.

Por isso a busca por novos clientes é considerada uma das prioridades da Comaru, a fim de reduzir a dependência do cliente único e o impacto da variabilidade da sua demanda. Entretanto, “o grande desafio é conseguir clientes que paguem o preço justo”, conta Aldemir Pereira, 25, presidente da cooperativa.

Outra estratégia adotada é a ampliação da fábrica no próximo ano, que permitirá a fabricação de produtos alimentícios a partir da torta da castanha -material remanescente do processamento. Assim, a cooperativa poderá diversificar sua carteira de clientes e comercializar seus produtos localmente, fortalecendo a categoria dos castanheiros e estimulando a agregação de valor nos produtos não-madeireiros provenientes da floresta.