Alagoas
Caso 06: AAPPE - Maceió, AL

Você sabia que o Brasil é, oficialmente, um país bilíngue?

Muita gente não sabe, mas, desde 2002, a Língua Brasileira de Sinais (Libras) é a segunda língua oficial do país: a lei federal 10.436 reconhece-a como meio legal de comunicação e expressão.

Essa oficialização vem em reconhecimento dos cerca de 9 milhões de brasileiros que possuem alguma deficiência auditiva -cerca de 5,1% da população nacional, segundo dados do último censo demográfico divulgado pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

Ainda segundo o IBGE, o Nordeste é a região com maior incidência de deficientes auditivos no país (5,8%) e também aquela onde a severidade desta deficiência é maior.

É nesse contexto que atua a AAPPE (Associação dos Amigos e Pais de Pessoas Especiais), uma organização da sociedade civil sem fins lucrativos, com sede em Maceió (AL), nosso sexto caso de negócios sociais.

Fundada em 1987, a AAPPE redirecionou seu foco de atuação em 1993, sob a liderança da analista de sistemas Iraê Cardoso, 50, uma empreendedora social que, após a morte de seu irmão surdo, abraçou a causa dessa comunidade, percebendo a carência de políticas públicas voltadas a pessoas com deficiência auditiva e/ou surdez em Alagoas.

A instituição atualmente atende cerca de 1.300 deficientes auditivos por mês, já encaminhou 4.000 surdos para o mercado de trabalho e se tornou um centro de referência em surdez na região Nordeste, graças a um conjunto de ações voltadas à habilitação e à reabilitação integral da pessoa com deficiência auditiva e/ou múltiplas deficiências.

Hoje ela atua em cinco frentes principais:
educação complementar para surdos em várias faixas etárias:
ensino da Libras; formação e capacitação de profissionais surdos e ouvintes para atuação na área da surdez; atendimento clínico nas áreas de pediatria, clínica geral, otorrinolaringologia, neuropediatria, terapia ocupacional, fonoaudiologia, psicologia e estimulação precoce;
e proteção e defesa de direitos da comunidade surda.

No entanto, o que chama a atenção em uma análise mais minuciosa da AAPPE é a eficiência com que ela gerencia seus recursos.

Suas receitas advêm majoritariamente da prestação de serviço para o SUS (Sistema Único de Saúde) -cerca de 90%- e o restante da arrecadação provém dos serviços de educação e inserção profissional e de doações -cada um representando, aproximadamente, 5%.

Com uma gestão financeira rigorosa, “centavo a centavo”, a AAPPE oferece serviços de saúde a um nível bastante superior ao da média nacional: um atendimento ágil, gratuito e de qualidade, profissionais gabaritados, equipamentos de ponta e estrutura adequada.

Ainda assim, opera com o orçamento estrangulado. O SUS não aumenta os valores pagos pelos procedimentos há dez anos, e todos os custos da instituição aumentaram no período, principalmente as despesas com pessoal, que correspondem a 80% dos custos totais (para se ter uma ideia, o IPCAi acumulado de 2003 a 2012 foi superior a 75%, segundo o IBGE). O fato da AAPPE conseguir pagar as contas no final do mês constitui uma espécie de milagre da utilização dos recursos federais.

Por outro lado, esse estrangulamento das receitas faz com que a instituição só consiga realizar investimentos por meio de parcerias e de projetos financiados por terceiros. Além disso, a dependência dos recursos do SUS constitui um risco que preocupa os gestores da AAPPE.

Por isso a instituição vem buscando meios de conseguir aumentar as receitas provenientes de outras fontes. O atendimento por planos de saúde e a ampliação dos serviços no setor de inserção profissional são oportunidades latentes, mas ainda pouco exploradas pela AAPPE.

Percebe-se que ela passa por um momento de estruturação e transição. Podemos dizer que é uma ONG migrando para um modelo de negócio social. A organização busca uma profissionalização de sua gestão e de seu marketing, com o objetivo de alcançar sua autossuficiência e sua consolidação como um negócio rentável, que presta um serviço inestimável a uma parcela tão excluída da população.